sábado, 24 de junho de 2017

Manuel Tiago é Álvaro Cunhal




Acima de tudo, dois pressupostos: a) não há absolutamente qualquer compatibilidade entre mim e o líder comunista Álvaro Cunhal e b) na análise a seguir tenho que ser intelectualmente honesto se não quero falsificar a minha posição de professor de Língua e Literatura portuguesas.

Desde já há muito tempo que venho pensando ler, ao menos, uma obra de Álvaro Cunhal. A oportunidade surgiu este mês quando encontrei, na feira realizada no Rossio de Alcochete, o livro Manuel Tiago, A Casa de Eulália, Edições Avante, Lisboa, 2002.
O texto está dividido em oito capítulos e estes em sub-capítulos: os números romanos são usados para os primeiros e os árabes para os segundos.
Os sub-capítulos são curtos. Também, lógica e predominantemente, as frases são curtas, seguindo-se umas às outras como rajadas de metralhadora. Veja-se esta pequena transcrição que faço da pág. 36, obra citada: «Caíam feridos de um e outro lado. Aqui e além prostrados no chão. Os combatentes não paravam para os socorrer. Seguiam adiante prosseguindo o avanço. Outros viriam ajudar os feridos». 
Aqui convém fazer uma chamada de atenção: as frases e textos curtos não diminuem o valor artístico nem a respectiva complexidade da obra cuja história de inocente não tem nada. É que estamos perante um texto literário que não deixa de ser um manifesto político.
O grande cenário desta narrativa é a guerra civil em Espanha. Madrid é a charneira e está nas mãos dos revolucionários.
O leitor verifica, a cada capítulo, que o partido sobrepõe-se, inexoravelmente, ao indivíduo. A este não são permitidas tergiversações, o que pode ser ilustrado pelo que se lê na pág. 174, obra citada: «Pensou, pensou e acabou por concluir que no fim de contas era o partido que colocava a questão e ele, como membro do partido, não devia recusar. Chegado a tal conclusão, começou a agir».
Os comunistas são os bons; os fascistas os maus. Esta dicotomia parece impedir o autor de ver que comunismo e fascismo são dois totalitarismos que não se separam, embora se devam distinguir: na verdade, o último (nacionalista) surgiu para combater o primeiro (internacionalista).
Nunca se ouviu dizer que o comunismo é uma ideologia do povo (uma cultura), mas sim de massa (mole informe). Eis por que no decurso do discurso não convém fazer distinção entre os dois conceitos. Repare-se neste passo da pág. 40, obra citada: «Com fogo cerrado de espingardas, o povo tinha cortado as estradas e descia pelas vertentes, fazendo recuar as tropas que, sob as ordens de oficiais fascistas sublevados, tinham saído dos quartéis para conquistar Madrid. António e Manuel avançavam com os outros, seguindo comandantes surgidos espontaneamente das massas».
As mulheres não deixam de fazer história nesta história. Madrecita é o elo de todos os hóspedes da sua casa, inclusive favorável ao enlace amoroso entre a sua filha Eulália e o português Manuel, um dos protagonistas.
A casa de Eulália é, simbolicamente, a grande casa ibérica que se consubstanciaria na união de Portugal e Espanha. Esta é a proposta do autor, velha como velhos são os problemas dos portugueses.

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